TESTEMUNHO DE VIDA EX-PADRE RAIMUNDO PEREIRA
Meu pai era um homem rico, era acionista da Usina de Açúcar de Catendes, foi um fazendeiro próspero na cidade de Garanhuns, estado de Pernanbuco, com uma fazenda de nove mil alqueires, com plantio de cana de açúcar, de tomate, criação de Búfalos, de cavalos de raça, gado de raça, ovelhas, etc. Vocês sabem muito bem que no nordeste existem duas classes de pessoas: o rico e o pobre. Meu pai era rico, ele tinha também um engenho de onde fazia sua própria bebida alcoólica, e meu pai, infelizmente, vítima do alcoolismo, veio a falecer. Deixou minha mãe uma viúva rica. Minha mãe era devota do Padre Cícero do Juazeiro, ela viajava de Garanhuns a Juazeiro do Padre Cícero a pé.
Meus pais tiveram quatro filhos, sendo três homens e uma mulher. Um dos meus irmãos ainda novo veio a falecer e eu tinha apenas seis anos de idade. Nesta época eu já feito a primeira comunhão. Certa noite eu tive um sonho, onde eu liderava um grupo de pessoas tão grande que eu olhava e não via o fim, quando acordei, contei para minha mãe. Vocês sabem existem dois tipos de nordestinos: uns que falam muito e outros que não falam nada, e minha mãe é daquelas que fala pouco. Ela só olhou para mim e disse: Deixe de besteira menino, tu come demais, tu vem contar besteira menino. Eu dava uma volta e pegava na saia da mamãe e dizia: mamãe, meu sonho? Até que um dia ela disse para irmos conversar com o Dom Expedito. Ele foi aquele Bispo assassinado a tiro de revólver pelo Padre Osana, muitos aqui se lembram deste acontecimento.
Quando Dom Expedito me ouviu, ele bem sério, olhando nos meus olhos disse: meu filho isto é uma chamada para o Sacerdócio. Quer ser um Padre? Eu disse: se mamãe deixar eu quero. Ele foi falar com mamãe e ela deixou. Eu só tinha seis anos e o seminário só pegava com sete anos. Nesse ano sua mãe prepara seu enxoval e no ano que vem você ingressa no seminário redentorista, disse Dom Expedito.
Eu fiz o seminário menor em Garanhuns, após fui transferido para o Rio de Janeiro, onde fiz o seminário maior, mas como no nosso seminário não tinha filosofia, viemos fazer filosofia em Aparecida, porque este seminário também é redentorista. No terceiro ano de filosofia, que se faz filosofia Aquiliana, a filosofia de São Tomas de Aquino.
Nós já tínhamos passado por teologia Ermenêutica, Egesesi, Ecleuseologia, prática sacerdotal, já tínhamos passado por toda aquela seleuma que Frei Paulo conhece, não é mesmo! Da época da missa em Latim, que da primeira até a última palavra na missa se celebrava
II
Eu fui levado a Roma, porque era promessa de minha mãe para eu ser consagrado ao sacerdócio. Os parlamentos de um Sacerdote que vai ser consagrado é bonito, com toda sinceridade é muito lindo. São parlamentos brancos e o Sacerdote deita-se no chão em forma de cruz aos pés de quem o vai consagrar, como eu fiz aos pés do Papa. É consagrado os polegares das mãos e os indicadores porque é aqueles dedos que vão pegar na hóstia. Eu levava isto muito a sério. Eu aprendi enquanto estava no seminário que paralelo ao céu e ao inferno havia um mundo chamado PURGATÓRIO, onde as pessoas que não morriam em estado de graça, tinham que passar pelo purgatório. Quando era celebrada uma missa em favor da alma daquela pessoa que estava no purgatório, o fogo do purgatório cairia um grau. Seria, vamos dizer assim, 10 vezes mais quente que o nosso. Eu levava isso a sério.
Eu aprendi que esta Bíblia, traduzida por João Ferreira de Almeida era falsa, e que a religião Protestante foi uma religião fundada pelo Frade Agostiniano, que se rebelou contra a igreja chamada Martinho Lutero. E que ser crente era para pobre, pretos e analfabetos. Uma das coisas mais difícil do mundo é ter uma Freira Negra ou um Padre Negro. Tem, mais é uma coisa rara. Infelizmente o racismo impera e eu quero contar outra coisa para vocês. Eu não sei se vocês sabem que Santo Antonio, São Benedito, nossa senhora Aparecida aqui no Brasil são negros e lá na Itália são brancos e loiros. Eu sei que o meu testemunho vai ser um pouco pesado, sei também que vão ter pessoas católicas que podem até virar as costas e irem embora, mas acredite meus irmãos, está escrito
Após minha consagração a sacerdócio, viajamos para a cidade de Lourdes na França, onde conheci mais uma mãe de Jesus. Chegamos em Lourdes, na Catedral, tinha um Padre sentado ao meu lado olhando pra nossa senhora, não tirava os olhos, nem piscava. Eu olhei pra ele, até pensei que era brasileiro e perguntei: Fala minha língua? Ele disse: não, falo italiano. Como eu falo um pouquinho de italiano, comecei a conversar com ele e disse: Essa aqui é a mãe de Deus, que apareceu aqui? E ele disse sim! Eu disse: engraçado, ela é diferente da nossa no Brasil. Ele disse: e como que é a brasileira? Eu disse: é negra! Ele disse: credo! E vocês deixam colocar no altar?
De Lourdes fomos a Portugal e conhecemos a terceira mãe de Jesus, Fátima. Eu estava hospedado na casa do Padre Vigário de Fátima, Padre Antonio da Nóbrega, ainda da família Nóbrega tradicional do Padre Manoel da Nóbrega. O Padre Antonio, já de cabelos grisalhos, estava olhando em cima da mesa dele as três imagens: Aparecida, Lourdes e Fátima e, junto havia uma vela acesa ao pé de cada uma. Eu cheguei próximo a ele e disse: O senhor é Padre há quantos anos? Ele disse: a vinte e cinco anos. Eu disse: Me diz uma coisa...nossa senhora Aparecida é a mãe de Jesus, nossa senhora de Fátima é a mãe de Jesus, nossa senhora de Lourdes é a mãe de Jesus? Ele respondeu: Sim! Eu disse: Porque que uma não parece com a outra, porque que o rosto de uma é diferente do rosto da outra? Ele pensou um pouco e disse: Bom, isso é devido a região que ela apareceu! Eu disse: Meu Deus, quer dizer que se trocar de região, se troca de rosto, então como vou chegar no Brasil? Olhei para ele e disse: a sua mãe é viva ou morta? Ele disse: Mamãe morreu já faz 15 anos. Eu disse: E se sua mãe ressuscitasse dos mortos, o senhor a reconheceria? Ele disse: lógico. Eu disse: mesmo se ela aparecesse no Japão, baixinha, olhinho puxado, afirmando ser tua mãe? Ele disse: Eu mandaria prendê-la como doida! Eu disse: se ela aparecesse na África, bem negra, dizendo ser sua mãe? Ele disse: não aceitaria, mandaria prendê-la como maluca! Eu disse: se ela aparecesse na Alemanha, bem loira e de olhos azul? Ele olhou para mim e disse: o senhor quer chegar onde? Eu disse: se Jesus voltar hoje, Ele vai ter que escolher alguém, mas quem, Ele vai escolher, Aparecida, Lourdes, Fátima ou Maria da Judéia? Ele pensou um pouquinho e disse: é lógico que é a Maria da Judéia. Eu disse: então o que vai fazer com as outras? Ele botou o dedo no meu nariz e disse: o senhor é Padre a quantos anos? Eu disse: anos, misericórdia, eu fui consagrado há 15 dias atrás. Ele coçou a cabeça e disse: infelizmente o senhor não vai servir para ser padre. Eu disse: por que? Ele disse: porque o senhor está com a fé estragada e, o pior de tudo que terminou de estragar a minha fé também!
III
Eu voltei para o Brasil e, aqui vocês sabem as duas letras “Q” “I”, quer dizer qualidades individuais especiais, mas no jeitinho brasileiro, chama-se quem indica. Eu fui indicado Vigário
Um dia eu fui ao correio, existe uma literatura que chega às mãos dos sacerdotes, chamada liturgia, e no meio das literaturas havia um embrulho maior, olhei quem me havia enviado, e era a Imprensa Metodista do Brasil. Cheguei em casa, abro e pra minha surpresa, havia uma Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida, uma Bíblia Protestante. Chamei o Padre Geraldo e disse: Geraldo o que é que eu faço com esse negócio? Queimo ou enterro? Porque a ordem que tínhamos se pegasse Bíblia Protestante em residência de católicos era tomar. Não dialogar com crentes, não ouvir programa evangélico de rádio, nem TV. Eu aprendi que crente era um “troço” tão contagioso, pior do que aidético, eu tinha essa concepção. No nordeste, crente lá é chamado de bode. Minha vó dizia, que os crentes fechava os olhos na igreja para não ver o bode preto que aparece dando cabeçada nas pessoas.
IV
Eu guardei aquela Bíblia na minha estante, logo após o almoço, por volta das duas horas, e disse: eu vou para o meu quarto descansar um pouquinho. Abri meu guarda-roupa, fui levando minha mão para apanhá-lo, quando peguei nele escutei alto e em bom som uma voz masculina, e aquela voz disse: “homem, apanha aquela Bíblia e a examina”. Eu sai para fora tão assustado que chamei o Padre Gerado e disse: Geraldo, eu acabei de ficar maluco! Ele: Mas como é que você sabe? Eu disse: A primeira pergunta que os psiquiatras fazem em uma consulta é se ouve vozes? Ele disse: o que a voz te disse? E quando eu falei para ele, ele disse: Rapaz o negócio é sério, pode ser Deus, porque o Diabo não vai mandar ninguém ler a Bíblia. Porque que você não obedece? Tudo bem, fui para o meu quarto, sentei-me e abri a Bíblia e por acaso eu abri no capítulo oito de João. Abri e comecei a lei do começo, e fui lendo, passou um pouco e me deparei com o versículo 32: “E então conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Eu pensei, mas o que quer dizer isto? Comecei a traduzir “a verdade vos libertará”, mas me libertará do que? Li o versículo 36: “Se pois o filho vos libertar verdadeiramente sereis livre”. Comecei a pensar: Senhor, do que eu preciso ser livre? Veio na minha mente o seguinte: você não tem um compromisso com Roma, com o Papa, quem sabe é isto? Eu fechei a Bíblia e abri de novo e saiu em Mateus capítulo 11, versículo 25, o qual diz: “Naquele tempo respondendo Jesus, disse: graças te dou ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultasse essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos”. Fiquei pensando: quem será os pequeninos a quem Deus revela, e não aos sábios?
V
Quando estudávamos Teologia, a única base que eles tinham pra falar em purgatório era salvar alguém, arrebatando-o como que do fogo, isso significa é salvar depressa, é tirar depressa. Isto não está dizendo que ninguém vai pro purgatório pegando
VI
Eu vou contar um segredinho pra vocês; na missa das 6:00 hs, eu bebia meio cálice de vinho do porto, que é o vinho da missa; na missa das 7, mais meio taça e, na missa das 8 uma taça e meia. Aquela aguinha que o padre põe dentro da taça é apenas uns pinguinhos, eu ficava tonto.
VII
Eu fiz a abertura da missa e disse: o tema do sermão de hoje é o seguinte: Não existe purgatório! Olhei para o plenário e perguntei se alguém tinha alguma pergunta a fazer? Um senhor levantou o braço e eu olhei para ele, e vi que era um médico psiquiatra e ele me disse: Padre, o senhor está bom do cérebro? Eu disse: se o senhor duvida me examina, me consulta após a missa. Ele disse: Porque se isso que o senhor está ensinando for real, por que então o senhor não ensinou antes? Eu respondi que somente havia aprendido ontem. A missa foi gravada e a fita foi levada para o Bispo.
VIII
Eu estava terminando o café da tarde, quando o Bispo chegou e chegou gritando: já ouvi o sermão do senhor hoje; puxou a fita do bolso e me mostrou. Também me mostrou três folhas de papel e disse: você sabe que é isto aqui? É a sua suspensão. O senhor está suspenso da ordem por 90 dias e, se não retirar o que disse será “excomungado” como rebelde e, a direção da Paróquia passa para seu companheiro. Eu quis falar alguma coisa, mas ele virou as costas e foi embora. Meu companheiro disse: Pereira, agora sim você tem que procurar um psiquiatra, porque você está querendo dar uma de Martim Lutero, se levantar contra a igreja desse jeito, você é louco! Eu disse pra ele, quer saber de uma coisa? Eu não quero mais conversa, vou para meu quarto ouvir Roberto Carlos. Estava na época de Roberto, era aquele sucesso. Liguei meu radinho, esperando ouvir Roberto Carlos e, quem estava cantando era Mateusiense, cantando hino de crente, e o hino diz assim: “Está chegando a hora de partir, prepara-te igreja pra subir, vigia sempre, firme em oração que é tempo de real consagração. Jesus em breve vem do céu, em glória, majestade e poder, medita oh igreja de Jesus, que dia glorioso há de ser”. Eu estava com o dedo no botão do rádio para desligar, mas não tinha coragem, o hino é muito bonito. Ai, o locutor anunciou: De
Eu confesso, eu tremi, tremi. O tema era: O Espírito Santo glorificando a Cristo. Cada pregador falava dentro do tema. Deram a palavra para um pregador do Canadá e ele leu Amós 4.12, a parte “b” do versículo. Ele começou a pregar sobre a lei sacerdotal. Ele disse que os primeiros sacerdotes foram Arão e seus filhos; que a lei sacerdotal durou até Zacarias, sendo Zacarias o último sacerdote. O último sumo sacerdote foi o Senhor Jesus. Ele consumou a obra sacerdotal na cruz. E Jesus após ressuscitado nomeou uns para evangelistas, pastores, doutores e mestres. Em um tom bem firme ele disse: Sacerdote não existe mais. Eu lembro que eu virei para o padre Geraldo e disse: E nós dois somos o que? Ele disse: dois bonecos fardados. Não tem mais, foi abolido na cruz.
O apelo naquela noite foi feito assim: amigo, você não gostaria de hoje experimentar um pouquinho do meu Jesus? Se você gostar dele fique com ele e se você não gostar pode me devolver, eu aceito de volta. Quando ele disse, quem quer aceitar a Jesus fique em pé, eu fui um dos primeiros a se levantar e gritar com toda força do meu pulmão; eu quero esse Cristo! Olhei para o meu colega, ele estava banhado em lágrimas, disse a mesma coisa.
O pregador disse: quem mais quiser aceitar a Jesus desça aqui. Desceram 11 mil pessoas. Abalou a imprensa do Rio de Janeiro, abalou a história. Meu colega juntou sua mala e desapareceu no mundo. O Bispo mandou outro padre
VIII
Mandei uma carta para minha mãe: “Mamãe, encontrei um Cristo diferente. Esse Cristo que eu encontrei não é aquele que está no Corcovado. Também não é de ouro, prata ou bronze. Esse Cristo é aquele do Apocalipse 1.18, aquele que disse: ‘Eu que vivo e estive morto, mas agora estou vivo para todo sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno’”.
Uma família que tem um filho padre já se considera salvos. Pra minha família eu era o santo da casa. Minha recebeu minha carta e, ao ler que eu não era mais padre, que agora eu sou crente. Para o Vaticano eu vou morrer padre. Quando minha mãe leu minha carta simplesmente ela gritou: “Meu filho morreu”! E desmaiou. Minha irmã leu a carta, fez minha mãe voltar a si e disse: Mãe, ele não morreu, ele apenas virou crente. Minha mãe disse: pra mim ele morreu!
Dezessete dias após, minha mãe mandou-me uma carta, dizendo: “Meu filho, eu preferia lhe ver morto; eu preferia pegar na alça do seu caixão, mas já que você virou crente eu nunca mais quero ver seu rosto, darei um jeito de te desmembrar da família”.
Para um filho ler uma carta de uma mãe no teor desta, é bravo. Eu sai chorando e fui para o meu quarto e lá, eu cai ajoelhado, foi ai que fiz a minha primeira oração, porque antes eu somente rezava, que não é a mesma coisa. Eu, ajoelhado no meu quarto disse: “Deus, quando eu era criança eu escolhi o sacerdócio humano com minha regra de fé, após adulto, está acontecendo tudo isso, após um sacerdócio formado, ordenado, está acontecendo tudo isso comigo. Deus, eu não quero ouvir a voz do homem, eu quero dos céus”. Quando eu disse “eu quero ouvir a voz dos céus”, o teto do meu quarto desapareceu, eu comecei a ver um clarão tão forte, e uma voz bradou: “meu filho, grande obra eu farei na tua vida; milhares virão ao meu conhecimento pela tua instrumentalidade”.
Eu só aquentei ouvir até ai. Nunca peça para Deus falar direto contigo, porque você não vai agüentar, é duro demais. Eu cai ali onde estava e fui levado ao pronto-socorro municipal. Após uma injeção, o médico que estava ao meu lado, disse: padre, o senhor estava desmaiado, seu companheiro lhe encontrou e lhe trouxe para cá, que está havendo? Eu fui tentar contar, mas eu só chorava e não conseguia falar. O médico começou a chorar e disse: meu irmão, eu também sou crente.
Eu fui para casa e fiz uma carta para o meu superior pedindo o meu desligamento, não esperei a resposta, eu sai fora. Minha mãe pagou um médico para fazer um atestado de óbito me dando como morto. A minha família que é rica, mora
Pastor da Igreja Evangélica Assembléia de Deus
Ministério de Belém
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